quinta-feira, 31 de julho de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 16

Terminado o jantar, sentiam-se ambos mais leves depois de tomarem conhecimento das suas vidas passadas quando deixaram de se ver com o terminar da sua relação.
Manuel tentava a todo o custo esconder os seus sentimentos mas Gabriela deixava transparecer toda a sua felicidade em ver que conseguiu conversar e fazer entender tudo o que se passou com ela e que nunca deixou de ter esperança em um dia ainda ser feliz com ele.
Saíram do restaurante e Manuel cortesmente ofereceu-se para levar Gabriela a casa, porque já passava das 23h e não era adequado uma senhora ir apanhar um transporte até casa.
- Gabriela, eu levo-te a casa, quando chegarmos ao Porto só tens de me dizer onde fica.
- Muito obrigada Manuel, indicarei sim.
Seguiram viagem de volta e pelo caminho combinaram então o tal jantar em casa dela e com o seu filho.
- E quando te dá jeito ires a minha casa jantar? Por mim pode ser qualquer dia, o meu filho Tiago todos os dias fala nisso.
- Bem, terei de ver a minha agenda no consultório com a minha secretária, não sei de cor, normalmente só vejo de um dia para o outro e sei que amanhã me será impossível. Depois de consultar te telefonarei, agora já tenho o teu número, mas em principio ficará para o fim-de-semana se não for quando o Tiago vai para o pai.
- Por acaso não vai, se estiveres livre fica então para sábado, confirma-me só amanhã!
- Certo, fica combinado, assim é melhor porque ambos não trabalhamos.
Passado mais de meia hora Gabriela já estava em casa e despediram-se como bons amigos.
Manuel quando chegou a sua casa, tomou um duche e foi-se deitar. O sono não havia maneira de aparecer, Gabriela e aquele jantar a dois não lhe saía da cabeça, mas sentia-se muito contente e ao mesmo tempo não queria sentir aquilo, sabendo que lhe tinha feito bem aquela aproximação, o seu outro lado ainda pensava na traição do passado. A muito custo sensibilizou-se que estava alegre e teria de seguir por esse caminho e não virar as costas, porque se o fizesse é que se iria sentir mal. Pensou e disse para si mesmo:
- Todos erramos e todos merecemos uma segunda oportunidade, acho que devo ser menos cabeça dura e tentar também ser feliz. Que seja o que Deus quiser e aquele menino diz-me tanto, não posso deixar de aproveitar. Espero não me arrepender!

---Trecho escrito por Paula Costa --- 31.07.2008 ----- (continua)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 15

Manuel, embora pouco à vontade, depois de tanto tempo, começou por falar.
- Desculpa Gabriela, não podia ir a tua casa jantar na frente do teu filho, depois do que aconteceu. Ele não sabe do nosso passado e portanto antes disso acontecer devemos combinar o que tem e não tem que saber, não podemos cair em contradições.
- Eu sei disso Manuel, mas queria é voltar a ver-te e o meu filho, nem imaginas as vezes que fala em ti. Pensei que se te propusesse um encontro antes, que provavelmente nem aceitarias. Estou feliz que o tenhas feito e também espero que depois de tanto tempo o teu coração tenha amolecido e depois de ouvires tudo o que se passou na realidade na minha vida me possas perdoar.
Manuel não quis dar o braço a torcer e rematou que iria àquele jantar na casa dela apenas pelo pequeno Tiago.
- Eu adoro o teu filho e estou a fazer tudo isto por ele, não quero que penses outras coisas Gabriela – e baixou os olhos ao fazer este comentário para que ela não visse no seu olhar que o que disse poderia não corresponder à verdade.
- Está bem Manuel mas já que aqui estamos podemos conversar sobre as nossas vidas e eu gostava que soubesses tudo o que se passou desde que nos zangamos e eu saí da aldeia.
- Se é da tua vontade, não quero forçar nada, conta então o que achares que deves.
- Como sabes eu fiquei grávida de outro, isso não é novidade, mas não sabes se te traía ou se aconteceu outra coisa. Eu não andava com esse sujeito, ele ía à loja muitas vezes desde que me conheceu quando fez uma compra. Era empresário e começou a prometer-me um emprego melhor e com bom salário. Marcou um dia para eu ir à fábrica dele para uma entrevista e eu fui. Não te disse nada antes porque sabia o quanto eras ciumento e provavelmente me irias questionar com coisas que eu não queria ouvir. Esse senhor era muito bem parecido e sempre muito amável para comigo mas nunca pensei que estivesse interessado em mim além de obter uma empregada nova. Quando fui à entrevista levou-me para o gabinete dele e deu-me a volta duma tal maneira que parece que fiquei hipnotizada e envolveu-me num esquema de sedução que eu parva não resisti e deixei-me levar. Aquilo era tudo novo para mim, muito ingénua ainda, deixei-me cair nas garras dele. Sabes como são as coisas, quando menos esperamos já fizemos a asneira e eu caí. A promessa duma vida melhor levou-me a continuar a ver no que daria aquele envolvimento e por azar engravidei. Só aí vi em que teia fiquei presa, eu amava-te muito mas fui ambiciosa, logo depois me arrependi e quis esconder tudo, mas a minha família sabia e o meu irmão abriu a boca, não resistiu, sabes como a minha família é digna de palavra. Então acabaste comigo e a minha hipótese era então voltar-me para o pai do meu filho. Ele vivia no Porto e tinha negócios na nossa aldeia e por isso passava lá muitas vezes. Com aquela vergonha de toda a gente saber e com a proposta dele para ir viver para o Porto, foi o que decidimos fazer. Os meus pais compraram casa perto e passado uns meses casei com o pai do meu filho. Nunca foi um casamento feliz, só o Tiago me alegrava, nunca o amei e ele também passado pouco tempo perdeu o interesse que inicialmente tinha. A minha vida foi sempre assim, trabalhava na fábrica do meu marido e há pouco tempo, quando decidimos nos divorciar, decidi também procurar outro emprego. Trabalho agora numa empresa de construção civil, sou recepcionista. De 15 em 15 dias o meu filho passa o fim-de-semana com o pai e falamos só o essencial. Se soubesses o tamanho do meu arrependimento e neste tempo todo nunca te esqueci. Quando te vi naquele consultório parecia um milagre. Tens de me perdoar Manuel.
- Na altura nem te podia ver, nunca pensei ser alvo de tamanha traição. Cheguei até a adoecer e fui internado, não tinha nenhuma motivação em viver. Os meus pais é que me ajudaram e com o tempo comecei a restabelecer-me. Saí da aldeia para estudar e ter outro nível de vida, mais nada além de trabalhar me dava ânimo. No Porto comecei a aprender a ser diferente e a experimentar coisas novas. Hoje sou este que vês na frente. Grande coincidência foi vir a ter o teu filho como paciente e voltar a encontrar-te. Pensei que nunca mais te veria na minha frente depois de teres saído da aldeia e ninguém saber para onde. Continuo muito magoado com o que aconteceu e ainda me custa pensar seriamente no passado, por isso tento abstrair-me. Estou mais maduro e agora já consigo entender os mistérios da vida e como também já andei por certos lugares que antes não frequentava, sei como é envolver-se rapidamente com alguém mesmo não querendo. Por isso agora já entendo melhor as coisas e o tempo ajuda a curar as mazelas. Não quero para já pensar noutra coisa senão ter a tua amizade e do teu filho e nada de precipitações. Mais tarde veremos o que o futuro nos proporciona, está bem assim Gabriela?
- Está certíssimo, só quero que sejas meu amigo de novo e não me vejas como uma leviana. Vais ver que não te vais arrepender – disse sorrindo, com os olhos brilhantes.
Aquela pequena esperança que Manuel acabava de lhe dar, fez-lhe palpitar o coração de felicidade e sabia que com calma voltaria a conquistá-lo mas não ía apressar-se, devagarinho iria dar-lhe a volta e convencê-lo com o seu amor.

---Trecho escrito por Paula Costa --- 17.07.2008 ----- (continua)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 14

Ambos tentaram esmerar-se para aquele encontro. Gabriela fazia mais sentido porque queria conquistar novamente o seu antigo amor. Agora Manuel, que recusava a si mesmo qualquer tipo de relação com a sua ex-namorada, não conseguia perceber porque queria dar tanto nas vistas e sentir uma grande ansiedade para aquele encontro chegar depressa. Martirizava-se de pensar assim, dizia que não queria mas não tinha forças para lutar contra o seu coração.
Era época de verão, mês de Julho, e esse dia estava muito quente.
Gabriela decidiu usar um vestido bem leve de vários tons de azul e branco com alcinhas, cintado, um pouco acima do joelho. Completou com uma sandália com tirinhas brancas de salto alto e uma carteira pequena da mesma cor. Maquilhou-se em tons suaves a condizer com o que vestia. Estava uma linda senhora e pronta para conquistar Manuel, mas bastante nervosa e com medo de não conseguir limpar o seu passado.
Manuel olhou várias vezes para o seu guarda-roupa e experimentou algumas peças, indignando-se em perder tanto tempo, quando em dias normais escolhia rapidamente. Queria mostrar que se tinha tornado numa pessoa de bem com a vida depois do afastamento que tiveram. Aquele aldeão de antigamente já não tinha nada a ver com ele e agora era um doutor e muito bem conceituado. Decidiu vestir uma camisa rosa clara com umas listas brancas muito fininhas. A calça era em tom azul-escuro e o casaco, que completava o fato, decidiu levar na mão e ficaria no carro porque estava calor. Os sapatos que decidiu levar foram os que lhe ficou mais caro, pretos e de pele genuína.
Na hora marcada, Gabriela já se encontrava à espera quando apareceu Manuel no seu BMW preto e fez final para que entrasse. Gabriela ficou muito admirada com o carro em que apareceu, nunca pensou que tivesse subido tão rápido na vida.
- Boa tarde Manuel, tens um lindo carro! Posso entrar?
- Olá, claro que sim. Posso levar-te a um sítio para jantar e conversarmos à vontade ou tens pressa?
- Podes sim, avisei a minha mãe que iria me encontrar contigo e pela hora que marcamos poderia chegar mais tarde e até depois do jantar, portanto estou à vontade. Só terei depois de lhe telefonar para ver se está tudo bem com o meu filho.
- Então podemos ir jantar a Espinho, conheço lá o bom restaurante e com bom espaço onde poderemos conversar mais reservadamente e sem muitas orelhas a escutarem – a caminho.
Mantiveram-se quase calados nesse pequeno trajecto de cerca de 20 km. Nenhum quis puxar o assunto que ali os levavam e preferiram deixar para ser discutido na mesa de jantar. As poucas palavras que trocaram foram sobre o pequeno Tiago, coisas vãs que se falam, como o tempo, as férias, o trabalho, etc.
Entretanto chegaram ao local e deslocaram-se lado a lado para o restaurante.
Manuel quis impressionar e escolheu um restaurante de requinte. Gabriela estava sem palavras e pouco à vontade com aquele luxo.
Foram encaminhados para uma mesa ao fundo da sala e onde não havia quase ninguém nas mesas do lado.
Muito bem decorado, a meia-luz, as mesas redondas contendo uma jarrinha com uma rosa e uma vela num castiçal. As tolhas eram vermelhas e compridas com outra mais pequena por cima de tom bege.
Sentaram-se e foi-lhes entregue o menu para escolherem. Gabriela preferiu que Manuel escolhesse, dado já conhecer o restaurante.
A especialidade do restaurante era Cabritinho em forno a lenha e decidiu pedir, porque também sabia os gostos de Gabriela. Pediu também vinho tinto do Douro.
Enquanto esperavam pelo jantar, comeram algumas das entradas que lhe foram colocadas na mesa e começaram então a conversar sobre o que ali os levava.

---Trecho escrito por Paula Costa --- 30.06.2008 ----- (continua)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 13

Passou uma semana depois de se reverem.
Gabriela não quis ser precipitada e deixou passar uns dias mas estava ansiosa para fazer aquele convite prometido antes que fosse tarde.
O seu coração voltou a palpitar quando teve a surpresa de voltar a ver Manuel, o amor que nunca esqueceu, e que por uma asneira perdeu, fazendo-a desviar-se dele. Mas depois daquele encontro, decidiu que ainda poderia lutar para ser feliz, o que viveu anteriormente não podia ficar esquecido e se tivesse tacto e pudesse demonstrar o quanto ainda o amava, que foi o único homem que amou na vida, não poderia descurar agora de o fazer com todas as forças. Além disso o seu filho adorava Manuel, até nisso poderia ter ajuda. Parece que Deus não dorme nestas alturas e nos faz testes para ver como nos conseguimos desenvencilhar das barreiras que nos coloca na frente.
Gabriela decidiu nesse dia telefonar a Manuel. Treinou direitinho o que dizer para na altura não vir a gaguejar. Estava super nervosa mas tinha de ser, era aquilo que queria, o pior que podia acontecer era não ser correspondida, mas iria utilizar toda a sua sensualidade e fazer crer a Manuel que ainda lhe era muito importante e que o seu filho também não parava de falar nele, sempre a pedir-lhe para o convidar.
Eram 19,30h e achou aquela hora apropriada, pensando que Manuel já não estaria a trabalhar e talvez já estivesse em casa. Ligou para o número de telemóvel que lhe foi dado. Esperou pacientemente. Demorou a atender mas finalmente teve sucesso.
- Estou sim! – disse Manuel
- Boa tarde Manuel, fala a Gabriela, como tens passado?
Assim tão rapidamente Manuel não contava voltar a falar com ela e ficou meio calado com a surpresa e a medir as palavras para responder.
- Olá Gabriela, estou bem obrigada, não estava à espera de ouvir-te e desculpa o meu silêncio mas fiquei surpreso. Passa-se alguma coisa com o Tiaguinho?
- Não, ele está bem, mas desde aquele dia que estivemos no teu consultório e ficou prometido fazermos um jantar, que todos os dias me chateia para te telefonar a convidar. Desculpa Manuel mas já não o posso ouvir e também será um prazer receber-te em minha casa. Adoraria convidar-te para jantar, amanhã ou depois, depende da tua disponibilidade. Mas por favor não digas que não, temos de conversar, eu sei que há muita coisa a dizer mas erros todos nós cometemos e se soubesses o quanto estou arrependida….
Manuel pensou rapidamente no que dizer e decidiu falar:
- Bem Gabriela, claro que não vou recusar, mais pelo pequeno Tiago, não conseguiria fazer-lhe essa desfeita, mas penso que temos muito que conversar antes de nos enfrentarmos de novo na frente do teu filho. Há coisas que temos de saber jogar e não cairmos em contradição na frente do miúdo, ele não sabe de nada do que se passou e não podemos ficar constrangidos com algo que surja na altura. Portanto seria melhor encontrarmo-nos um dia antes desse jantar e podermos combinar o que dizer e o que não dizer. O que achas?
- Acho muito bem, também era essa a minha opinião mas tive receio de te pedir. Eu saio do meu trabalho às 18,30h e a partir dessa hora poderás marcar uma hora e o local. Digo à minha mãe para ir buscar o meu filho ao infantário e estarei disponível.
- Combinado, por mim pode ser amanhã às 19h. Dá-te jeito na Avenida dos Aliados ou preferes outro local? Não sei onde moras mas eu tenho carro e poderei deslocar-me até lá.
- Pode ser, não me fica muito longe – disse Gabriela.
- Então está marcado, frente aos CTT à hora marcada. Depois vemos onde ir. Até amanhã!
- Até amanha Manuel e muito obrigada – e meio timidamente decidiu dizer – um beijo.
Manuel ainda pensou se responderia de igual modo mas simplesmente desligou o telemóvel. Não conseguiu dizer o que o seu coração mandava mas foi a sua cabeça quem venceu.

---Trecho escrito por Paula Costa --- 09.06.2008 ----- (continua)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 12

Não conseguia encontrar as palavras certas para pronunciar na frente do miúdo, pois quem estava na sua frente era a sua ex-namorada Gabriela. Nunca supôs voltar a encontrá-la e muito menos que seria a mãe daquela criança que tanto adorava.
Agora sim, conseguiu finalmente saber quem era a pessoa que Tiago lhe fazia lembrar. As expressões, aquele olhar azul, o cabelo loiro encaracolado – era a cara da mãe. Como não conseguiu logo aperceber-se disso? Tinha apagado de vez aquela época que não queria sequer voltar a viver tais recordações.
Gabriela estava mais acabada e com um semblante triste. Mas a sua beleza era ainda bastante evidente. Talvez um pouco mais desleixada, mas nada que um belo trato a fizesse voltar a ser a mulher que conheceu.
No meio daquele silêncio que se fez quando ambos se olharam, o pequeno Tiago quebrou o gelo:
- Manuel, esta é a minha mãe, tive de lhe pedir muito para cá vir porque só tu me podias curar! – disse sorrindo com ar matreiro.
Tanto Gabriela como Manuel não queriam demonstrar nada que fizesse Tiago aperceber-se do que se tinha passado há alguns anos atrás, mas também não queriam mentir ao miúdo de que já se conheciam. Quem decidiu falar primeiro foi Gabriela.
- Bom dia Manuel, nunca imaginei que fosses o médico do meu filho e muito menos que te tivesses tornado médico, mas que grande surpresa – e virando-se para Tiago disse: - Filho, afinal a mãe e o Sr. Doutor já se conheciam há muitos anos, vivemos na mesma aldeia e fomos colegas de escola.
- Pois é, depois de saíres da aldeia já não podias saber mas decidi voltar a estudar e tirei o curso de Pediatria. É uma surpresa muito grande saber que Tiago é o teu filho, é a criança que eu mais adoro consultar e somos verdadeiros amigos – disse Manuel.
- Eu sei disso, ele não pára de falar de ti e sempre a pedir-me para cá vir. Até inventa doenças de propósito e diz que só tu o sabe tratar. Quando o levava a outro médico nunca via melhoras nele. Nós agora vivemos bastante afastados desta zona, desde que me separei do pai de Tiago – disse Gabriela um pouco timidamente, devido à relação que ambos tiveram e olhando nos olhos de Manuel, interpretando se havia algo no seu olhar que ainda lhe dissesse que a sua história lhe interessava.
- Lamento muito a vossa separação, os filhos é que sofrem com isso – disse meio encabulado e sem saber que mais pronunciar sem que Tiago percebesse que a sua mãe e ele já foram namorados e estiveram para casar – conheci o pai mas nunca supus que afinal já conhecia a mãe e fiquei muito triste quando soube que poderia não voltar a ver aqui o meu amiguinho.
De repente Tiago diz:
- Que bom que já se conheciam, agora já podemos sair todos juntos e o Manuel já pode ir comer a nossa casa não é mamã?
Gabriela ficou gelada com aquela reacção do filho e simplesmente abanou a cabeça a dizer que sim, completando:
- Sim filho, claro que pode mas moramos longe e não sei se o Manuel poderá ir porque tem muito trabalho, mas será um prazer – virou-se para Manuel sorrindo mas ao mesmo tempo com receio de obter uma recusa. Sabia que se portou muito mal no passado e provavelmente nunca seria perdoada.
Manuel não quis por enquanto contradizer Gabriela na frente do filho, teria tempo depois de pensar bem no assunto e estava ainda de cabeça quente com tais acontecimentos, decidindo responder:
- Terei de arranjar um tempinho querido, sabes que tenho muitos meninos como tu para atender. Mas prometo que irei ver-te a ti e à tua mãe e vamos fazer um grande jantar – disse fazendo-lhe carícias pela cabeça e mantendo-o no seu colo.
Vendo aquela cena Gabriela aproveitou, dado que não foi recusada e que não caísse no esquecimento, pediu o numero de telefone a Manuel para mais tarde ligar a convidar a ir lá a casa jantar.
Manuel viu-se na obrigação de o fornecer. Como é que aquele miúdo o podia fazer coisas que pensava nunca mais acontecer. Se não fosse ele, provavelmente não aceitaria qualquer convite vindo de Gabriela. Ao mesmo tempo algo o fazia palpitar com aquela aproximação. Seria por ela ou seria pelo filho?

---Trecho escrito por Paula Costa --- 27.05.2008 ----- (continua)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 11

Passaram-se meses e o pequeno Tiago nunca mais apareceu no seu consultório.
Manuel todos os dias, no final do expediente, pedia à sua secretária a listagem das marcações para verificar se figurava o nome do seu amigo, mas com muita pena sua, parece que tinha desistido de lá ir. Todas as pessoas que lhe eram mais importantes acabavam sempre por se ir embora. Parecia sina.
Por causa desta situação Manuel andou outro período bastante triste, nada o animava, só vivia para o trabalho e nisso era sempre bastante profissional.
A sua secretária já sabia que quando lhe pedia a lista das marcações era por causa do seu paciente Tiago e certo dia obteve um telefonema de sua mãe a marcar uma consulta. Dispôs-se a marcar logo no primeiro furo que tinham porque sabia que o Dr. Manuel sonhava há muito em encontrar de novo aquele miúdo que o animava demais. Mal terminou o telefonema, correu à sala de atendimento.
- Dr. Manuel, tenho uma surpresa para si! – disse sorrindo …
- Diga Maria, que se passa?
- Sabe quem acabou de marcar uma consulta?
- Não faço ideia, espero que a Maria me diga, é alguém especial?
- Tenho a certeza que é muito especial para si, é o pequeno Tiago Manuel.
- A sério? Já não acreditava mais em vê-lo, para quando marcou? – disse todo entusiasmado e com uma felicidade que já não se via há algum tempo.
- Tivemos uma desistência para amanhã às 15,30h e encaixei logo nesse horário, a mãe do pequeno aceitou e então ficou marcada. Parece que é mesmo a mãe que o traz desta vez.
- Óptimo, fez muito bem, até que enfim uma boa notícia, obrigada Maria.
A face de Manuel rejuvenesceu e notava-se já um sorriso há muito ausente. Como é que uma criança consegue transfigurar logo uma pessoa.
O dia custou a passar, estava muito impaciente e queria que o dia de amanhã chegasse rápido.
Quando saiu do trabalho, não resistiu em passar numa loja de brinquedos e comprar um carro telecomandado. Queria felicitar o seu amigo por voltar ao seu consultório. Sentia-se feliz de novo e desejoso de o rever.
Finalmente aproximava-se a hora da consulta e Manuel não parava de olhar para o relógio.
Muitas vezes não conseguia que as consultas marcadas fossem exactamente a essa hora mas nesse dia conseguiu acelerar para que não houvesse atrasos e que a do seu amigo fosse mesmo às 15,30h, os seguintes que esperassem mais um pouco, aquela consulta era especial para ele.
Mal saiu o paciente antes de Tiago Manuel, ligou para a extensão da sua secretária.
- Maria, já chegou o pequeno Tiago?
- Sim Sr. Doutor, já está na sala de espera com a sua mãe, posso mandar entrar?
- Claro que sim e se demorar mais um pouco já sabe porque foi, avise os próximos e invente qualquer desculpa, a Maria sabe sempre ser convincente – disse sorrindo.
- Esteja descansado doutor e boa consulta ao Tiaguinho, ele está lindo e já se fartou de perguntar por si, até já!
A secretária pediu à mãe e ao filho que entrassem, que o doutor já os esperava.
Tiago correu sem esperar pela mãe e nem bateu na porta, abrindo-a de rompante correndo para o colo de Manuel, abraçando-o com toda a força.
- Voltei, eu não disse que voltaria? – disse Tiago cheio de alegria.
- Eu sabia que te voltaria a ver mas já estava a perder a esperança, demoraste!
Estavam tão entretidos a felicitar-se um ao outro que a mãe do pequeno se encontrava parada na porta incrédula e observar aquela cena.
Quando Manuel se apercebeu que ainda não tinha visto a mãe de Tiago, olhou para a porta e simplesmente parou de espanto.

---Trecho escrito por Paula Costa --- 23.05.2008 ----- (continua)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Conto 3: "Traição" - Parte 10

De entre tantas crianças que atendia diariamente, havia um rapazinho de nome Tiago Manuel que simpatizava mais do que as outras e era sempre uma alegria todas as vezes que se deslocava ao seu consultório na companhia duma empregada de seus pais, para ser consultado.
Não sabia muito bem responder o porquê desta afinidade mas talvez fosse porque o fazia lembrar alguém e também por ter aquele nome. Recordava-se de quando namorava a sua Gabriela e falavam em ter filhos, de escolherem os nomes que colocariam aos seus e o de Tiago Manuel era um deles.
Tiago era um miúdo lindo, com uns caracóis muito loiros e uns olhitos azuis radiantes, sempre muito espevitado e cuidado.
Aquelas consultas eram um divertimento para ambos e demoravam sempre mais que as outras. Além de o consultar e ver se estava tudo bem, conversavam muito e Manuel queria sempre saber o que fazia na escola, a que gostava de brincar e todas as vezes que lá ia punham a conversa em dia. Tornaram-se verdadeiros amigos além da relação que mantinham de médico/paciente. Manuel via-o como o filho que sempre sonhou ter.
Na primeira vez que foi ao seu consultório foi levado pelo pai e foi informado que nas próximas consultas o filho seria levado pela sua empregada, dado que ele e a mãe trabalhavam e não tinham muita disponibilidade para o levar nas horas que eram marcadas.
Manuel nunca soube o nome da mãe porque desde início o nome que figurou foi sempre o do pai quando fez a sua inscrição. Escolheu esse Pediatra dado ter ouvido falar muito bem por outros pais conhecidos que também levavam os filhos para aí serem consultados.
Na última consulta ao pequeno Tiago, foi informado pela empregada que o acompanhava, que os pais estavam em vias de separação e a casa onde moravam seria vendida, prevendo-se que o miúdo dali para a frente iria viver com a mãe, mas não sabia bem para que zona, porque ainda ia adquirir casa. Se mudasse para perto do consultório ainda poderia ser que a mãe continuasse a levá-lo ao mesmo pediatra, dado que ela ficaria só ao serviço do seu patrão. Caso contrário teria de mudar para outro que ficasse mais perto da sua residência ou área de trabalho. Também dependeria das economias da mãe, porque até agora o pai é quem pagava as despesas e tinha posses para isso, dado ser um grande empresário na área do mobiliário. A mãe era uma simples empregada de balcão e estas consultas poderiam manter-se se obtivesse uma boa pensão do ex-marido.
Tiago Manuel, embora com 6 aninhos, já o tinham feito ver que provavelmente deixaria de ir ter com o seu médico amigo e isto devido à separação dos seus pais. Via-se nele uma grande tristeza que antes nunca era pressentida, dada a sua traquinice e felicidade até aí vivida.
O miúdo no final dessa consulta deu um grande abraço a Manuel e meio choroso prometeu pedir muito à mãe que o continuasse a levar ao seu consultório, nem que fosse um pouco mais longe, mas queria ser sempre consultado pelo seu querido médico.
Manuel ficou muito triste com aquela situação e esperava não ter sido aquela a última vez que via aquele seu pequeno amigo de que tanto gostava.

---Trecho escrito por Paula Costa --- 12.05.2008 ----- (continua)